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A Apple prepara um novo computador para entrar na briga direta com os netbooks e os leitores digitais


Portal EXAME

"Não importa se o produto é bom ou ruim, o fato é que as pessoas não leem mais. Toda a concepção do aparelho é falha desde o início." Foi com sua típica sutileza que o fundador da Apple, Steve Jobs, comentou o lançamento do Kindle. Era janeiro de 2008, e o leitor digital da Amazon tinha apenas dois meses de vida. Enquanto muitos enxergavam no aparelho o futuro dos livros, Jobs dizia à imprensa americana que não via vida longa num aparelho que apenas reproduzia textos. Em março deste ano foi a vez de Tim Cook, diretor operacional da Apple e na época ocupando interinamente a presidência, disparar contra os netbooks e seus "teclados apertados, software terrível e hardware podre". "Jamais colocaria a marca Mac nisso aí", disse. Apesar da arrogância e do desdém, pouca gente duvida: a Apple está, sim, preparando um produto que vai competir diretamente com o Kindle e com os netbooks. Entre analistas e seguidores da empresa, a expectativa é que o novo aparelho seja apresentado no começo do próximo ano, e todos parecem seguros do que vem por aí: uma espécie de iPhone vitaminado. O novo computador seria um aparelho sem teclado, um formato conhecido como tablet no mundo da tecnologia, cuja principal função será navegar na internet e rodar programas parecidos com aqueles disponíveis para o smartphone. Será que a Apple vai sacudir o mercado de tecnologia mais uma vez?

A Apple nem sempre foi a primeira empresa a entrar em um mercado, mas seus produtos sempre mudaram os rumos da indústria. O iPod foi lançado em 2001, quando já existiam diversos tocadores de MP3. Mas inovações como o uso de um disco rígido para armazenamento e o botão circular de navegação fizeram dele o aparelho portátil ideal — hoje com 74% do mercado mundial. Com o iPhone, lançado em 2007, não foi diferente. Ele surgiu depois de outros smartphones, mas inaugurou a onda dos controles multitoque, com o simples deslizar dos dedos sobre a tela. O tablet, seja como for, deverá trazer inovações tecnológicas para superar as telas claustrofóbicas dos netbooks e os recursos limitados dos leitores digitais, que nem sequer têm conexão com a internet. Para os especialistas, não é exagero acreditar que a Apple trará alguma inovação de peso, porque pôde usar como um laboratório vivo todas as críticas e os elogios que as concorrentes receberam com seus produtos. "A Apple não será a primeira, mas a expectativa é que seu novo aparelho revolucione a forma como se pensa a mobilidade, a conectividade à internet e a interação com conteúdo", diz Gene Munster, diretor da consultoria americana Piper Jaffray. Entre os grandes interessados estão, naturalmente, as editoras e as empresas de mídia. Nos recentes seminários nos Estados Unidos sobre o futuro das publicações impressas, o tablet foi o personagem principal mesmo antes de ser lançado. Ele é apontado como o aparelho que vai permitir a real convergência dos textos impressos com elementos multimídia. Para Munster, em breve, será possível ler uma reportagem de um jornal impresso e complementar a leitura assistindo a um vídeo sobre o assunto no mesmo lugar, num equipamento mais propício para a leitura do que um notebook.

Os produtos da Apple são sinônimo de criatividade e design na indústria de tecnologia, mas hoje já não é possível definir a companhia apenas como fabricante de eletrônicos. "Somos a única empresa que possui tudo: o hardware, o software e o sistema operacional. Temos responsabilidade completa sobre a experiência do usuário. Podemos fazer coisas que outras pessoas não conseguem." A frase foi dita por Steve Jobs à revista Time em 2002. Na época a Apple era bem diferente do que é hoje, mas já acreditava que podia ser o ponto único de contato com o usuário. De lá para cá, a empresa conseguiu cercar o consumidor com aparelhos de todos os tipos, de celular a computadores, mas no coração da estratégia da companhia está a teia de conteúdo criada pelas lojas iTunes, de música e vídeos, e App Store, de programas. "Diferente dos demais fabricantes que produzem apenas os equipamentos, a Apple funciona como um centro unificado de conteúdo", diz Laura DiDio, analista da consultora americana Itic.

A App Store tem hoje cerca de 100 000 programas disponíveis. Os donos de iPhone já baixaram mais de 2 bilhões de aplicativos, capazes de dar as mais variadas funções ao aparelho: de controle remoto a um piano portátil. Com o tablet, a lógica deve ser parecida. A expectativa é que a Apple aproveite a grande comunidade de desenvolvedores para criar programas que aumentem a atratividade do tablet. Além disso, rumores indicam que a Apple já negocia com editoras e empresas de mídia americanas para adaptar o conteúdo de periódicos e livros ao aparelho e vendê-los pela loja iTunes. Para atrair um grande volume de títulos, a Apple estaria disposta a oferecer 70% do valor das vendas às editoras, em um modelo de remuneração muito mais interessante do que os 30% pagos pela Amazon atualmente. Na opinião dos especialistas, a estratégia de articulação de conteúdo e as funções multimídia podem ser um golpe mortal para os leitores digitais como o Kindle ou ao recém-lançado projeto da rede de livrarias Barnes & Noble. Provavelmente antecipando o movimento do novo competidor, a Amazon começou a vender seu leitor digital em outros países.

O tablet deverá preencher o espaço existente entre a linha de iPhones e de notebooks de entrada da Apple, os MacBooks. A expectativa é que ele chegue ao mercado americano custando entre 600 e 800 dólares, mas há quem acredite que ele possa ser vendido com planos de serviço de operadoras móveis, exatamente como os celulares. Um estudo da Piper Jaffray estima a venda de 2 milhões de unidades do tablet no primeiro ano do projeto, o que deve render 1,3 bilhão de dólares à Apple. Pode parecer excesso de otimismo, mas, levando em consideração o histórico dos produtos da empresa, o cálculo chega a ser conservador. No primeiro ano de vendas, o iPhone totalizou 11,5 milhões de aparelhos no mundo todo. No ano seguinte foram 15,7 milhões de unidades e no terceiro ano foram quase 30 milhões de aparelhos.

Para outros analistas, porém, com o tablet a situação talvez não seja tão fácil. Primeiro porque muitos consumidores que buscavam um computador portátil compacto já podem ter escolhido um netbook e talvez não estejam dispostos a gastar mais dinheiro com um aparelho com características semelhantes. Depois porque o tablet não terá uma das principais características dos leitores digitais, a tecnologia do papel eletrônico. Batizada de e-ink, a tecnologia virou padrão nos livros eletrônicos pois reduz o cansaço da leitura em telas iluminadas, como as dos computadores, além de prolongar a duração da bateria. Outra questão é a forma de vender conteúdo impresso. O tablet é acima de tudo um computador. Ele tem conexão à internet e um navegador que permite ao usuário surfar livremente na rede, inclusive pelos sites de jornais e revistas — no Kindle, o acesso é controlado pela Amazon e todo o conteúdo é pago. Ainda não está claro como a Apple poderá ganhar dinheiro com essas assinaturas que seriam oferecidas pelo iTunes, já que o usuário poderia acessar o conteúdo gratuitamente pelo navegador. "Existe o risco de a Apple estar colocando o aparelho no mercado sem ter um ecossistema totalmente pronto para ele. Imagino um aparelho totalmente maduro daqui a dois anos", diz Rob Enderle, presidente da consultoria americana Enderle Group. Ainda não existem respostas a todos os pontos de interrogação sobre o tablet da Apple. Por enquanto, a única certeza é que ele deverá sacudir novamente a indústria de tecnologia, num estilo como Jobs está acostumado a fazer.

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